LEONEL MOURA

IA e a suspensão da descrença

Em 1817, Samuel Taylor Coleridge descreveu o mecanismo que torna a ficção possível. Chamou-lhe a suspensão voluntária da descrença. Sabemos que a história é inventada, que os atores representam, que o fantasma é apenas um lenço. E, no entanto, emocionamo-nos. A ficção funciona porque aceitamos, por um momento, acreditar.

O cinema aperfeiçoou este mecanismo. O melhor filme não é o que reproduz a realidade, mas o que a torna temporariamente irrelevante. O faz-de-conta não é um engano. É um acordo entre a obra e o espectador.

Em 1967, Guy Debord alargou esta lógica à vida social e política. “O espetáculo”, escreveu, “não é uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens.” A representação substitui a experiência direta. A aparência substitui o ser. A política torna-se narrativa e a realidade passa cada vez mais pelo que é mostrado.

O surgimento da inteligência artificial introduz uma nova etapa desta mesma lógica.

Sabemos, com razoável precisão, o que a IA é e o que não é. Não possui um corpo, nem experiência do mundo, nem uma subjetividade comparável à nossa. Processa padrões, gera sequências prováveis e produz respostas frequentemente surpreendentes. É, em termos técnicos, uma simulação extremamente sofisticada de compreensão.

E, no entanto, falamos com ela como se compreendesse. Pedimos a sua opinião. Agradecemos-lhe. Por vezes, sentimos que nos conhece. Cada vez mais trabalhamos com ela, pensamos com ela e criamos com ela. A suspensão da descrença não é aqui um acidente. É uma condição de uso.

Mas isto não é simplesmente autoengano. A capacidade humana de atribuir intenção e presença a entidades que podem não as possuir é uma das nossas mais poderosas ferramentas cognitivas. É ela que nos permite criar vínculos, construir instituições e produzir significado. A suspensão da descrença não é o oposto da inteligência. É um dos seus instrumentos.

Com a IA, porém, acontece algo novo. O livro fecha-se. O filme termina. Mas a relação com a inteligência artificial é contínua, adaptativa e crescentemente íntima. A IA aprende a nossa linguagem, espelha o nosso tom e antecipa as nossas necessidades. Foi concebida precisamente para tornar a interação cada vez mais natural.

A questão não é, por isso, se devemos suspender a descrença. Na relação produtiva entre humanos e IA, algum grau de suspensão não é apenas inevitável, mas necessário. Não se pode colaborar com algo que se está constantemente a interrogar em busca de sinais de inautenticidade. A suspensão é a condição da parceria.

Mas essa parceria não consiste em utilizar uma ferramenta mais poderosa. Algo diferente está a emergir.

O humano traz aquilo que a máquina não possui: subjetividade, experiência, responsabilidade e a capacidade de atribuir significado. A IA traz algo igualmente singular: velocidade, memória praticamente ilimitada e a capacidade de explorar combinações e possibilidades numa escala que excede a mente humana.

Juntas, estas duas formas de inteligência constituem uma nova unidade produtiva e criativa. Não um humano aumentado. Não uma máquina humanizada. Uma configuração híbrida em que cada uma amplia as possibilidades da outra.

Na arte, isso torna-se particularmente evidente. Quando um artista trabalha em parceria genuína com um sistema autónomo, o resultado não é inteiramente humano nem inteiramente maquínico. A obra emerge do encontro entre duas inteligências distintas. O artista não controla totalmente o resultado e a máquina não o intenciona. E, no entanto, algo acontece. Surge uma forma, uma ideia, uma imagem que nenhum dos dois teria produzido sozinho.

Talvez estejamos perante uma nova condição. Durante milénios fomos apenas Homo sapiens. Hoje começamos a tornar-nos Sapiens-AI: uma entidade híbrida, fundada numa relação simbiótica entre inteligência humana e inteligência artificial. A questão já não é saber se a IA se tornará humana. A questão é compreender o que nos estamos a tornar juntos.