Folha de Sala

O mundo é tudo! Filósofos e outras máquinas

Esta retrospetiva percorre quase cinco décadas de prática artística: dispositivos conceptuais, pintura, diagramas, vídeo e experiências com Inteligência Artificial (LLM).

Em vez de seguir uma cronologia de estilos, a exposição organiza-se em núcleos que funcionam como capítulos de uma investigação contínua sobre linguagem, imagem, pensamento e máquinas.

Em Regresso da pintura?, esta é retomada como laboratório de cor e forma, não como retorno nostálgico, mas como ensaio crítico sobre o próprio gesto pictórico.

Frases são imagens proposicionais nas quais a figura se torna proposição lógica, afetiva ou política, testando os limites entre ver, ler e pensar.

Em Qualia, uma experiência mínima expõe a impossibilidade de descrever uma cor até ao fim, sugerindo que só o ato de ver pode responder pelo visível.

A sequência Combate entre as metades esquerda e direita do meu cérebro sobrepõe matemática (os fractais de Mandelbrot), psicologia (as manchas simétricas de Rorschach) e linguagem (frases) em conflito produtivo, como se o cérebro se observasse a si mesmo num campo de batalha.

Em Rasura, as frases cedem lugar a imagens em que o texto é apagado, persistindo o seu fantasma gráfico.

Obras como Pequena antinomia e Tropical Zoo são o resultado dum movimento de destituição e reconstituição da nossa consciência dos objetos comuns, adquiridos em lojas e dados de novo a ver, ainda que sob um estatuto paradoxal, revelando tensões entre forma e função, afeto e crueldade, domesticidade e sedução consumista.

A Utopia [painel semântico], por sua vez, exibe os designados Mapas de Democracia, destinados à vida comunitária na era digital, convocando narrativas antigas, imagens e arquivos que, desde a aurora da humanidade, definiram geografias humanas e continuam a convocar futuros desejáveis.

Cor, Linguagem e Complexidade trata a cor, a simetria e a organização da forma como gramática elementar de uma linguagem visual complexa.

A Segunda Cidade [painel semântico], por sua vez, propõe um modelo especulativo para o entendimento das cidades e das cidades aumentadas, nas quais o espaço urbano atual, feito de betão, aço, vidro e uma infinidade de novos materiais, passou a incluir, na sua estrutura profunda, gémeos digitais feitos de fibra ótica, satélites, nuvens de dados, mas também ideias e narrativas.

Em Digital Freaks e Bernini’s Bananas [painel semântico] desfilam criaturas híbridas, nascidas do trabalho criativo com os Large Language Models. Estas figuras nascidas do texto escrito, sem carne nem osso, são, porém, cada vez mais semelhantes às criaturas naturais que emulam ou inventam.

Big Bang? [painel semântico], uma cartografia de incertezas cosmológicas devolve a origem do universo ao campo da disputa científica e imaginária.

O ciclo Parlamento dos Outros [painel semântico] esboça uma política alargada aos mundos animados e inanimados, dos infra-objetos aos hiperobjetos, até às ideias sem espaço, tempo ou forma, propondo uma redistribuição da representação aquém e além do humano, convocando uma genealogia da paz e da responsabilidade que atravessa figuras tão diversas como Noé, São Francisco, Rousseau, Kant ou Rachel Carson.

Na parte final, o Gerador de Arte e Inteligência Artificial (GAIA) e o Mosteiro das Proposições [painel semântico] colocam em tensão duas arquiteturas mentais: a do laboratório pós-contemporâneo, que começa na querela sobre o universo e onde se desenvolvem relações entre teoria, tekné e atenção, e a de um lugar dedicado à jardinagem das perguntas.

Noutras obras, como açougues, padarias, laticínios, a luz comercial e a cor conceptual encontram-se numa iteração muda da Pintura, entre a abstração e as cores que a constituem como manifestação da subjetividade concreta (a objetividade possível que só a arte pode oferecer)…

Enquanto Labirinto, Casa de Brincar, ensaia uma arquitetura elementar para a imaginação.

Na sala dedicada à Arte, Media e Memória, as TVs, o vídeo e as molduras digitais não surgem como simples reedições, mas como novas interpretações e atualizações de obras anteriores que se prolongam em memórias mais recentes.

Entropia condensa tensões geopolíticas num dispositivo simples, instável, onde as bandeiras dos Estados Unidos e da ex-URSS ao lado duma moldura vazia revelam estruturas antropológicas mais profundas.

Em Filosofia, Luz e Autorretrato, as silhuetas de duas cadeiras construídas com tubos LED (uma delas tombada) convocam o corpo do visitante para o lugar do filósofo. Já na obra Eu o autorretrato devolvido pelo espelho opera como um dispositivo que interroga cada visitante atento.

As obras Maternidade, Pintura fóssil e o vídeo Está tudo bem fazem oscilar a arte entre o consumo, a memória e um diagnóstico irónico do presente.

Entre filósofos e outras máquinas, a exposição apresenta-se como uma ecologia sensível do pensamento e da imaginação em tempo de transformação acelerada da condição humana.

Exposição

Obras

Medidas das obras de arte — A x L cm

Galeria 1

Regresso à Pintura?

1985 Expressionismo Abstrato

  1. – 5. E.A., 1985, acrílico sobre tela, 60 x 60 cm.

1988 Impression Volée, Corunha

  1. – 8. I.V., 1988, óleo sobre tela, 48 x 63 cm.

1989 Bild | Litania

  1. – 13. Bild, 1989, acrílico sobre tela, 81 x 81 cm.
Frases

1989 — 1991

  1. S.t. [uma obra no museu], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  2. S.t. [bodegón], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  3. S.t. [the syndrome of Alfred Leslie], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  4. S.t. [blockbuster curatorial activity inc.], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  5. S.t. [¡Hola, señor Thyssen!], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  6. S.t. [good morning, Mr Saatchi], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  7. S.t. [il fallait la raser], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  8. S.t. [this is a time-consuming image], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  9. S.t. [still life], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  10. S.t. [tableau entier], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  11. S.t. [proposição muda], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  12. S.t. [as pedras duram um pouco mais], 1989, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  13. S.t. [o mundo manifesta-se na linguagem], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  14. S.t. [the silence of my Trappist friend], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  15. S.t. [o mundo sem os pobres seria uma utopia], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  16. S.t. [o ar livre será para os ricos], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  17. S.t. [o ar condicionado será para os pobres], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  18. S.t. [quanto mais ganhas, mais trabalhas], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  19. S.t. [o branco não é transparente porque reflete], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
  20. S.t. [uma frase de dimensão n], 1991, grafite e aguarela sobre papel, 52 x 67 cm.
Qualia

1992

  1. Qualia, 1992, acrílico sobre tela, 18 x 24 + 18 x 24 + 18 x 24 cm (tríptico).
Combate entre as metades esquerda e direita do meu cérebro

1992

  1. – 51. RdM, 1992, grafite, tinta da China e aguarela sobre papel, 45,7 x 54 cm.
Rasura

2020 — 2021

  1. – 54. Rasura, 2020–2021, marcador acrílico sobre papel, 50,2 x 40,8 cm.
Deuterótipos

1992

  1. Pequena antinomia, 1992, deuterótipo, dimensões variáveis.
  2. Tropical Zoo, 1992, deuterótipo, cerâmica, madeira, água, granulado para cães, dimensões variáveis.
Utopia

2012 — 2014

  1. Mapas de democracia, 2012–2014, 150 x 280 cm, impressões digitais sobre papel, manuscritos, técnica mista sobre papel, alfinetes metálicos e cartão alveolar (painel semântico).
Cor, Linguagem e Complexidade

1990

  1. – 67. RYB, 1990, grafite e aguarela sobre papel, 64 x 49 cm.
Imagina!

2017 — 2026

  1. Segunda Cidade, 2017, 150 x 140 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  2. Digital freaks/ Bernini’s Bananas, 2023–2025, 150 x 420 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  3. Big Bang?, 2025, 150 x 140 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  4. O Parlamento dos Outros — Constituição, 2025, 150 x 140 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  5. O Parlamento dos Outros — Deputado Pugilista, 2025, 150 x 140 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas, escultura de bronze.
  6. O Parlamento dos Outros — Lebres, 2025, 150 x 280 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  7. O Parlamento dos Outros — À donner, estudos para um monumento à teoria, 2026, 150 x 240 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  8. Mosteiro das Proposições, 2026, 150 x 140 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas.
  9. Gerador de Arte e Inteligência Artificial (GAIA), 2026, 150 x 280 cm, painel semântico, impressões digitais sobre papel, anotações manuscritas e impressas, moldura digital.

Galeria 2

CkS
  1. CkS: açougues . padarias . laticínios, 1990–2026, dispositivo de luz, dimensões variáveis.
  2. Labirinto, Casa de Brincar, 2026, cartão, papel e outros materiais, dimensões variáveis. Autor: Família Feliz

Galeria 3

Media e Memória

1979, 1980, 2026

  1. Fluxus (Yo casi no sé Fluxus, pero me gusta), 1979–2026, giz sobre lousa, 18 x 26,2 cm.
  2. Espera, 1979–2026, dispositivo, televisão, monitor, lençol de algodão, dimensões variáveis.
  3. Espera – DOC, 2026, quadro digital, 35,5 x 33 cm.
  4. Dois canais, 1979–1980/2026, dispositivo, televisões, impressão digital, dimensões variáveis.
  5. Dois canais – DOC, 2026, quadro digital, 35,5 x 33 cm.
  6. Entropia, 1980, dispositivo, bandeiras, moldura, vidro, ca. 120 x 50 cm.

Galeria 5

Filosofia, Luz e Autorretrato

1991, 1992, 2026

  1. O filósofo branco, 1991–2026, dispositivo, tubos LED, ca. 240 x 120 cm.
  2. O filósofo inclinado, 1991–2026, dispositivo, tubos LED, ca. 170 x 255 cm.
  3. Eu, 2026, espelho, cerca de 74 x 52 cm.
  4. Maternidade, 1992–2026, fotografia, 59,4 x 84 cm.
  5. Pintura fóssil, 2026, óleo sobre cartão, 38,2 x 30 cm.
  6. Está tudo bem, 2026, fotogramas, moldura digital, 24 x 16 cm.

Espectro eletromagnético

2026

  1. Está tudo bem — Conversa entre António Cerveira Pinto e Leonel Moura sobre Arte e Máquinas que Aprendem, 2026, vídeo, 79 min. [Canal 180, microsite]
  2. O mundo é tudo!, 2026, microsite da exposição.
  3. Um minuto por dia, 2026, vlog de António Cerveira Pinto (a partir de 23/7).

Programa

Inauguração

  1. Inauguração do evento: 19:00.

Visitas guiadas

  1. António Cerveira Pinto: 23/7, às 19:30.
  2. Bernardo Pinto de Almeida: 26/7, às 10:30.
  3. Rodrigo Magalhães: 06/9, às 10:30.

Workshop

  1. AAA: Argila >> Algoritmo >> Arte / Uma genealogia da vanguarda feminina, 5/9, 10:00–13:00 / 15:00–17:00.
  2. AAA: Argila >> Algoritmo >> Arte / Uma genealogia da vanguarda feminina, 5/9, 10:00–13:00 / 15:00–17:00.

Descrição

Colóquio

  1. Artistas e máquinas às voltas com a infinitude — 12/9, às 17:00.
    • Participações especiais: Bernardo Pinto de Almeida, Leonel Moura.

Lançamento do catálogo

  1. Apresentação de O mundo é tudo! Filósofos e outras máquinas — 12/9, às 18:00.
  2. Encerramento da exposição — 13/9, às 22:00.

Créditos

Promotor
Câmara Municipal da Maia
Pelouro da Cultura

Presidente da Câmara Municipal da Maia
António Silva Tiago

Vereador do Pelouro da Cultura
Mário Nuno Neves

Chefe de Divisão da Cultura
Sofia Barreiros

Curadoria
António Cerveira Pinto

Coordenação Geral
Aula do Risco, Lda.

Produção Executiva e Comunicação
Mariana Vitale

Design gráfico
Ana Resende Studio

Texto de apresentação
Bernardo Pinto de Almeida

Participação especial
Família Feliz
Igor Sterpin
Leonel Moura

Montagem
Hernani Miranda
Kikopedras

Registo vídeo e fotográfico
Igor Sterpin

Revisão
Diogo Nóbrega

Programa paralelo
António Cerveira Pinto
Bernardo Pinto de Almeida
Leonel Moura
Rodrigo Magalhães

Media partners
Canal180
Coffeepaste

Agradecimentos
Bernardo Pinto de Almeida
Centro de Arte Oliva e Zapping
Fundação Gramaxo
Leonel Moura

Equipa Técnica da Divisão de Cultura
Fórum da Maia
Adriano Freire, Alex Costa, Ana Pereira, Carla Andrade, Carla Araújo, Conceição Couto, Conceição Ribeiro, Dora Couto, Nuno Marinho, Paula Mendes, Rui Pinto, Rui Sobral, Teresa Sá, Vítor Silva

Mais informações
omundoetudo.com

Instagram
@omundoetudo
@maia_cultura

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