
ACP. s/t, 2024
Sobre
O mundo é tudo! Filósofos e outras máquinas
A retrospetiva da obra de António Cerveira Pinto que terá lugar no Fórum da Maia, de 23 de julho a 13 de setembro, percorre quase cinco décadas de prática artística: dispositivos conceptuais, pintura, diagramas, vídeo e experiências com Inteligência Artificial (LLM).
Em vez de seguir uma cronologia de estilos, a exposição organiza-se em núcleos que funcionam como capítulos de uma investigação contínua sobre linguagem, imagem, pensamento e máquinas.
Em Regresso da pintura?, esta é retomada como laboratório de cor e forma, não como retorno nostálgico, mas como ensaio crítico sobre o próprio gesto pictórico.
Frases são imagens proposicionais nas quais a figura se torna proposição lógica, afetiva ou política, testando os limites entre ver, ler e pensar.
Em Qualia, uma experiência mínima expõe a impossibilidade de descrever uma cor até ao fim, sugerindo que só o ato de ver pode responder pelo visível.
A sequência Combate entre as metades esquerda e direita do meu cérebro sobrepõe matemática (os fractais de Mandelbrot), psicologia (as manchas simétricas de Rorschach) e linguagem (frases) em conflito produtivo, como se o cérebro se observasse a si mesmo num campo de batalha.
Em Rasura, as frases cedem lugar a imagens em que o texto é apagado, persistindo o seu fantasma gráfico.
Obras como Pequena antinomia e Tropical Zoo são o resultado dum movimento de destituição e reconstituição da nossa consciência dos objetos comuns, adquiridos em lojas e dados de novo a ver, ainda que sob um estatuto paradoxal, revelando tensões entre forma e função, afeto e crueldade, domesticidade e sedução consumista.
A Utopia, por sua vez, exibe os designados Mapas de democracia destinados à vida comunitária na era digital, convocando narrativas antigas, imagens e arquivos que, desde a aurora da humanidade, definiram geografias humanas e continuam a convocar futuros desejáveis.
A investigação sobre Cor, Linguagem e Complexidade trata a cor, a simetria e a distribuição estocástica (por exemplo, a ausência de um dos lados de um quadrado) como gramática elementar de uma linguagem visual complexa.
A Segunda Cidade, por sua vez, propõe um modelo especulativo para o entendimento das cidades e das cidades aumentadas, nas quais o espaço urbano atual, feito de betão, aço, vidro e uma infinidade de novos materiais, passou a incluir, na sua estrutura profunda, gémeos digitais feitos de fibra ótica, satélites, nuvens de dados, mas também ideias e narrativas.
Em Digital Freaks e Bernini’s Bananas desfilam criaturas híbridas, nascidas do trabalho criativo com os Large Language Models. Estas figuras nascidas do texto escrito, sem carne nem osso, são, porém, cada vez mais semelhantes às criaturas naturais que emulam ou inventam.
Big Bang? — Uma cartografia de incertezas cosmológicas devolve a origem do universo ao campo da disputa científica e imaginária.
O ciclo Parlamento dos Outros esboça uma política alargada aos mundos animados e inanimados, dos infra-objetos aos hiperobjetos, até às ideias sem espaço, tempo ou forma, propondo uma redistribuição da representação aquém e além do humano, convocando uma genealogia da paz e da responsabilidade que atravessa figuras tão diversas como Noé, São Francisco, Rousseau, Kant ou Rachel Carson.
Na parte final, o Gerador de Arte e Inteligência Artificial (GAIA) e o Mosteiro das Proposições colocam em tensão duas arquiteturas mentais: a do laboratório pós-contemporâneo, que começa na querela sobre o universo e onde se desenvolvem relações entre teoria, tekné e atenção, e a de um lugar dedicado à jardinagem das perguntas.
Noutras obras, como CkS: açougues, padarias, laticínios, a luz comercial e a cor conceptual encontram-se numa iteração muda da Pintura, entre a abstração e as cores que a constituem como manifestação da subjetividade concreta (a objetividade possível que só a arte pode oferecer)…
Enquanto Labirinto, Uma Casa para Brincar ensaia uma arquitetura elementar da imaginação.
Na sala dedicada à Arte, Televisão e Memória, as TVs, o vídeo e as molduras digitais não surgem como simples reedições, mas como reinterpretações e atualizações de obras anteriores que se prolongam em memórias mais recentes.
Entropia condensa tensões geopolíticas num dispositivo simples, instável, onde as bandeiras dos Estados Unidos e da ex-URSS ao lado duma moldura vazia revelam estruturas antropológicas mais profundas.
Em Filosofia, Luz e Autorretrato, as silhuetas luminosas de duas cadeiras, uma delas tombada, convidam o visitante a imaginar o lugar do filósofo. Já na obra Eu, o autorretrato devolvido pelo espelho opera como um dispositivo que interroga cada visitante atento.
As obras Maternidade, Pintura fóssil e o vídeo Está tudo bem — Conversa entre António Cerveira Pinto e Leonel Moura sobre Arte e Máquinas que Aprendem fazem oscilar a arte entre o consumo, a memória e um diagnóstico irónico do presente.
Entre filósofos e outras máquinas, a exposição apresenta-se como uma ecologia sensível do pensamento e da imaginação em tempo de transformação acelerada da condição humana.
Organização
Câmara Municipal da Maia
Pelouro da Cultura
