MÁRIO NUNO NEVES
Vereador do Pelouro da Cultura
da Câmara Municipal da Maia
A realização da exposição O Mundo é Tudo!
Filósofos e Outras Máquinas, de António Cerveira
Pinto, no Forum da Maia constitui um aconteci-
mento de excecional relevância no panorama
cultural português contemporâneo e representa
um momento particularmente significativo para
a política cultural do Município da Maia. Mais do
que acolher um dos percursos artísticos mais
singulares e intelectualmente exigentes das úl-
timas décadas, esta exposição oferece ao públi-
co a oportunidade rara de contactar com uma
obra que dissolveu, de forma pioneira e profun-
damente original, as fronteiras entre arte, filo-
sofia, ciência, tecnologia e pensamento crítico,
afirmando a criação artística como uma autên-
tica tecnologia de conhecimento.
A ligação de António Cerveira Pinto à Maia
possui, aliás, raízes já consolidadas. A sua cura-
doria da Bienal da Maia, em 1999, em que a cida-
de convidada foi Shanghai, deixou uma marca
duradoura na história cultural do concelho, tor-
nando particularmente simbólico o regresso da-
quele que permanece como uma das figuras
maiores da arte contemporânea portuguesa.
Nascido em Macau, em 1952, artista, ensaísta,
curador e investigador, desenvolveu, ao longo de
quase cinco décadas, uma obra dificilmente
classificável segundo as categorias convencio-
nais da História da Arte, antecipando muitos dos
grandes debates que hoje dominam a reflexão
internacional sobre a cultura digital, a inteligên-
cia artificial, a ecologia dos sistemas complexos
e as novas formas de produção do conhecimento.
A sua investigação inscreve-se numa linha-
gem internacional de artistas para quem a arte
constitui, antes de mais, um instrumento de
pensamento. Tal como Marcel Duchamp deslo-
cou o centro da criação artística do objeto para
o conceito; Joseph Beuys concebeu a “escultura
social” como forma de transformação política
e cultural; Nam June Paik inaugurou uma nova
relação entre arte e tecnologia; ou Roy Ascott
abriu caminho à arte telemática e às redes de
inteligência distribuída, também António
Cerveira Pinto desenvolveu uma prática onde
a criação artística se converte num laboratório
epistemológico, interrogando permanentemen-
te as formas de produção do conhecimento e as
mutações da experiência humana. Mais recen-
temente, o diálogo implícito com artistas como
Rafael Lozano-Hemmer, Hito Steyerl ou Refik
Anadol evidencia a atualidade de uma investi-
gação que, em Portugal, começou muito antes
de a inteligência artificial e a cultura algorítmi-
ca se tornarem temas centrais do debate artís-
tico internacional.
No contexto português, a sua obra ocupa
igualmente um lugar singular. Embora dialogan-
do com a dimensão conceptual presente em au-
tores como Ernesto de Sousa, Alberto Carneiro
ou Julião Sarmento, distingue-se por integrar,
de forma sistemática, contributos provenientes
da filosofia analítica, das ciências cognitivas, da
teoria dos sistemas, da cibernética, da cosmolo-
gia e da inteligência artificial, construindo um
território de investigação praticamente sem pa-
ralelo na arte portuguesa contemporânea. Neste
sentido, a sua produção aproxima-se mais de um
vasto programa de investigação interdisciplinar
do que de uma sucessão de ciclos estilísticos.
A presente exposição não constitui, porém,
uma simples retrospetiva cronológica nem um
exercício de evocação biográfica. Organiza-se an-
tes como um vasto dispositivo de pensamento,
uma verdadeira arquitetura conceptual onde
cada núcleo expositivo corresponde a um mo-
mento de investigação sobre questões fundamen-
tais da condição humana: a natureza da imagem,
os limites da linguagem, a experiência estética,
a memória, a cidade, a política, a ecologia, a téc-
nica e a emergência de inteligências não huma-
nas que começam a partilhar connosco o espaço
da criação, da interpretação e da decisão.
Entre pintura, desenho, vídeo, instalações,
diagramas, dispositivos conceptuais e experi-
mentação com Inteligência Artificial, o visitante
é permanentemente convocado a abandonar
a posição tradicional de observador para assu-
mir a condição de participante ativo. Cada obra
apresenta-se como uma hipótese interpretativa,
uma interrogação ou um problema aberto. Não
procura oferecer respostas definitivas, mas es-
timular uma experiência crítica que obriga
a repensar simultaneamente aquilo que vemos,
a forma como pensamos e os instrumentos atra-
vés dos quais produzimos conhecimento.
Neste sentido, o próprio título da exposição
adquire um significado filosófico de extraordi-
nária densidade. O Mundo é Tudo! estabelece um
diálogo explícito com a célebre proposição inaugural
do Tractatus Logico-Philosophicus de
Ludwig Wittgenstein — «O mundo é tudo o que
acontece» — para a projetar sobre os desafios
do século XXI, onde filósofos, artistas, algorit-
mos, máquinas e inteligências artificiais passam
a integrar um mesmo horizonte epistemológico.
Mas essa reflexão encontra igualmente resso-
nâncias nas conceções de Martin Heidegger so-
bre a técnica (Die Frage nach der Technik), nas
teorias dos simulacros de Jean Baudrillard, na
sociedade em rede de Manuel Castells e na cul-
tura pós-digital analisada por Lev Manovich, au-
tores cuja influência atravessa grande parte da
reflexão contemporânea sobre a imagem, a tec-
nologia e o conhecimento.
A arte deixa, assim, de ser apenas objeto de
contemplação estética para se afirmar como
instrumento privilegiado de investigação crí-
tica, capaz de interrogar simultaneamente
a realidade e os próprios mecanismos através
dos quais essa realidade é construída, repre-
sentada e compreendida.
Ao longo do percurso expositivo cruzam-se
referências provenientes da filosofia, da mate-
mática, da psicologia, da teoria política, da
cosmologia, da arquitetura, da antropologia,
da ecologia e das ciências da complexidade,
revelando uma conceção profundamente hu-
manista do conhecimento. Longe da compar-
timentação disciplinar, António Cerveira Pinto
demonstra que o pensamento apenas alcança
a sua plenitude quando diferentes saberes en-
tram em diálogo permanente, produzindo no-
vas formas de compreender o mundo. Esta visão
aproxima-se, aliás, daquilo que Edgar Morin
designou por “pensamento complexo”, recu-
sando leituras fragmentárias da realidade em
favor de uma compreensão sistémica das múl-
tiplas interdependências que estruturam
o mundo contemporâneo.
Obras como Regresso da Pintura?, Qualia,
Digital Freaks, Segunda Cidade, A Utopia ou
Parlamento dos Outros constituem momentos
particularmente expressivos desta investigação
contínua. Nelas cruzam-se a experiência sensível
e a especulação filosófica, o gesto artístico e o
algoritmo, a memória da pintura e as alucina-
ções das cibermáquinas, a cidade física e as geo-
grafias virtuais, a política humana e a possibili-
dade de uma comunidade alargada a todas as
formas de existência, animadas e inanimadas.
Cada uma destas séries amplia o campo da re-
flexão estética para o domínio da ética, da eco-
logia e da própria ontologia do contemporâneo,
convocando debates que hoje atravessam disci-
plinas tão diversas como a filosofia da mente,
a inteligência artificial, a teoria dos media,
a ética ambiental e os estudos pós-humanistas.
Durante os próximos meses, o Forum da Maia
transforma-se, deste modo, num singular espa-
ço de pensamento e experimentação: simulta-
neamente laboratório de teoria, oficina de ima-
ginação crítica e lugar de recolhimento
intelectual perante as profundas transforma-
ções tecnológicas, culturais, geopolíticas e cos-
mológicas que caracterizam o nosso tempo.
Num momento histórico marcado pela acelera-
ção tecnológica, pela omnipresença dos algo-
ritmos e pela emergência da inteligência artifi-
cial como novo agente cultural, a arte reassume
uma função cívica absolutamente essencial:
preservar a liberdade da imaginação, da dúvi-
da, da consciência crítica e da capacidade de
formular perguntas que a técnica, por si só,
nunca poderá responder.
É precisamente neste contexto que a obra de
António Cerveira Pinto revela toda a sua atuali-
dade. Muito antes da explosão pública da inteli-
gência artificial generativa, da cultura dos gran-
des modelos linguísticos ou da ubiquidade dos
sistemas algorítmicos, o artista interrogava já o
modo como as máquinas poderiam transformar
os processos de representação, de criação e até
de consciência, fazendo da arte um espaço pri-
vilegiado para pensar criticamente aquilo que
o futuro começava discretamente a anunciar.
A escolha do Forum da Maia para acolher
esta exposição confirma, por isso, uma visão
cultural que o Município tem vindo a consoli-
dar ao longo dos anos: promover uma cultura
entendida não apenas como espaço de fruição
estética, mas igualmente como exercício de ci-
dadania, de pensamento livre e de construção
coletiva do conhecimento. Receber António
Cerveira Pinto significa reafirmar esse compro-
misso, proporcionando à comunidade uma ex-
periência artística que simultaneamente desa-
fia convenções, amplia horizontes intelectuais
e convida cada visitante a participar ativamen-
te na permanente reinvenção do humano.
Em nome do Município da Maia, exprimo
o meu reconhecimento a António Cerveira Pinto
pela generosidade desta partilha e agradeço
a todos quantos contribuíram para tornar pos-
sível esta exposição. Estou convicto de que
O Mundo é Tudo! Filósofos e Outras Máquinas
permanecerá como uma das mais relevantes
propostas culturais apresentadas no Forum da
Maia, constituindo um marco no diálogo entre
arte, ciência, filosofia e cidadania e afirmando-se
como um dos mais sólidos exemplos, no contexto
artístico português, de uma criação que com-
preende a arte não apenas como linguagem, mas
como uma das formas mais sofisticadas de pro-
dução de conhecimento e de interpretação crí-
tica da condição humana no século XXI.